terça-feira, 15 de maio de 2012

Visita do poeta Antônio Lazulli





Outro dia me surpreendi lendo um poema do Lazulli, e pedi que me mandasse outros, que gostaria de conhecer melhor o que ele escreve. Assim foi, e me deparei com uma série de poemas que inquietam por uma soma de estranheza, leveza e profundidade em camadas, de um clima supra-real que apaga as distinções, ou as reorganiza, e ainda por cima dentro de um registro de humor, textura nada fácil em poesia. A grande dúvida foi que poema postar aqui. Espero que vocês gostem, como aconteceu comigo.




INTERJEIÇÃO SEM MOTIVO ALGUM


uau , alguém me disse uma vez que sempre
sonhou  escrever um poema
que se iniciasse com esta interjeição.
E disse mais: esta interjeição não estaria
se referindo a nada em específico,
não existiria em conseqüência de nada que  houvesse.
Apenas um uau curto e sonoro
sem nenhum motivo, nada que pudesse  causá-lo,
nenhum fenômeno extraordinário
como por exemplo a lua roída por súbitos
escaravelhos vermelhos,
ou a morte banida da face da terra.
Apenas uau
sem nenhum fato que o causasse
 sem nenhuma excentricidade
que não fosse  apenas a do som: uau.
alguém me disse e estou quase me lembrando
está na ponta da língua, está na ponta.
Sem nada que merecesse o adjetivo fantástico-
nenhum peixe que engolisse todas as estrelas de uma vez
e depois as expelisse também de uma vez num pum.
Uau sem rosadas bailarinas se equilibrando na borda
do cálice para depois caírem uma a uma
e morrerem afogadas em  vinho tinto
após spacat aéreo,
 um uau solitário, fora dos longos
encadeamentos de causa e efeito
sem nenhuma palavra intimidadora
como lardizabaláceo, lutjanídeo, lumpemproletariado,
ou lual onde elefoas vitaminadas dançam ula-ula
com colares havaianos no pescoço
e  elefantes-surfistas por sua vez consomem marijuana
e detonam melancias inteiras, não.
Apenas uau,  sem nada que não fosse
sua própria existência
seu existir por si só, acho que foi mais ou
menos isto que disse essa pessoa... M, Ma, Mar-
k, só não sei se ele também sonhou terminar o tal
poema com este não-histórico,
incorruptível,
ubíquo,
uau.
.

3 comentários:

Antônio disse...

Obrigado Nuno, uma honra estar aqui,entre tanta gente boa. E você fez uma leitura muito atenta da minha poesia, como mostra o comentário introdutório. Forte abraço!

Antônio disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Anônimo disse...

Ual com todas as honras da emoção, muito bom , poderoso ...