sábado, 2 de junho de 2012

Visita de Paula Freitas

[Janela branca e verde com mulher no canto]







Ester


arquear o corpo da mulher. música xilofonada em ossos. tudo são arcadas, fósseis, o sangue apaixonado a se espraiar pelos microcanais das tetas.
Mar Becker



Uma blusa de cetim continha sua aspereza
A superfície da lixa era o Irreal

Dez mil decibéis de madeirame sentir a textura dos lenços sentir a frieza dos metais fala intricada do concreto esfregando átomos epiderme estática elegia de dardos em pele de anjo descascado de éter – filigranas em papel machê amassado – sentir o furor do preto quando o branco insone súmula prepotente excerto voador do tato 
Cabelos entornam a nuvem
Cartel de fogo-abraço
Milícias tocando Schubert
Simultaneidade do esparso  

Absorto onírico o tronco espalha-se a noite tem cem mil escravos uma mulher curva-se a quilômetros no espaço – tecer as notas de guerra – sentar-se beber-se liquefazer o pânico em organogramas teóricos: no centro entorna um copo de leite vazio – como há leite? – não há: solidez mecânica nas patas de barata método para cozer o poema tornar-se pegajoso feito átrio de linguagem esmorecer-se em assomo – a merda espalha-se doloroso o ser sente a origem da insurgente aura

Melancolia de objetos fecais corre o sangue o súbito despertar de espermas – o que há no centro das estrelas? – qualquer outro movimento que não seja selva

Curva-se em triângulo harmonia
O objeto que não seja sonho
Ferido de morte espinho
Intrincado de estrógeno

Em casulo só há o verme quente dourar destroços anima despida de res nos trópicos – soluçar até não sentir os pés, tropeçar sem direção, recôndito solícito de pães forno a lenha do desespero feminil

Ser teu sangue conquanto sem seus céis maresia disforme em contramão ser signo enquanto sopé – dá-me um pedaço de chão – louca tempestade do inaudito semântica fluindo ao controle da mente enlouquecido contido em retóricas crentes: tatear bordas de útero expelir placenta natimorta o filho crescendo invisível assombrando portas

Rochas sobre rodas: o galgar do cavalo cevando cimento – um rapaz chora – aventura emocional sob juncos de asfalto a luzir aquilo que outrora fora lenha: chão de barro pisado, ao fundo decrescentes toras: esguichos de pele-masmorra: muralha do ser 
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A leitura dos poemas de Paula Freitas provocam, sem chance de recusa, um deslocamento. As miríades de imagens, cada uma portando um sentido [ou muitos] fazem você se sentir numa selva, ou num deserto em plena madrugada sob tempestades de areia. Uma viagem sem passagem de volta, passageiro leitor. 

Mais de Paula Freitas no blog I-N-T-E-R-M-E-Z-Z-O. e na revista Mallarmargens.

Um comentário:

Paula Freitas disse...

Nuno, que ótimo ver um texto meu aqui no meio de tanta coisa boa!
Fico muito feliz pela publicação!

Abraços e obrigada,
Paula